Uma noite
Entrámos no bar, devia ser, mais coisa menos coisa, uma da manhã.
O mesmo grupo de sempre, de há dez anos para cá.
Estávamos todos bem dispostos, como é hábito, mas por alguma razão, eu estava distraído. Olhei em volta, a ver se via alguma das poucas caras conhecidas, que não fazendo parte deste grupo mais chegado, posso, por vezes, ter uma conversa, que não se restrinja ao habitual "então tudo bem?".
Algumas caras totalmente desconhecidas, poucas, afinal estamos em Março, não é altura para haver já muitos "estrangeiros".
A música é sempre interessante, uma das razões que nos faz vir aqui, num volume que nos deixar ouvir os nossos cérebros a funcionar, conseguindo mesmo conversar, sem gritar aos ouvidos uns dos outros.
Não poucas vezes já me dirigi ao bar para saber o que estava a passar, umas das barmaids lá me diz o nome, completamente desconhecido, mais um admirável mundo novo musical, terminando a conversa normalmente com um "se quiseres, eu gravo-te num cd". As vezes em que já houve um final de conversa destes entre nós, se tivessem sempre resultado num cd gravado, já tinha uma considerável colecção de "sons alternativos, pós-modernos, neo-clássicos, ligeiramente electrónicos..."
Quando dei por mim, já estávamos todos em frente ao balcão. Foi quando a vi, estava ao fundo, vodka tónica numa mão, cigarro na outra, conversando com uma amiga, com quem já a vi algumas vezes, mas de quem pouco sei, nem mesmo o nome.
Aproximei-me
Olá, tudo bem?
O que é que me queres Zé?
Desculpa, nada de mais, só cumprimentar-te...
(não era bem só cumprimentar-te, mas com uma entrada destas, fiquei desarmado, sem saber o que dizer a seguir)
Mais uma vez, desculpa...
Afastei-me, sem olhar para ela, só quando já estava longe, entretanto tinham-se sentado a uma mesa, é que olhei para ela novamente, notei que, por instantes ficou ligeiramente incomodada (se calhar não devia ter dito nada, mas agora é tarde...)
Ali ficamos sentados, cerveja atrás de cerveja, conversa atrás de conversa, risada atrás de risada
Quem é que se lembrou das tequillas?
Tudo bem, desde que seja só uma, duas no máximo, vocês sabem bem como é que eu fico, se bebo mais do que duas.
Vá lá, não sejas assim, hoje não é uma noite qualquer e amanhã também não vais trabalhar!
Ai não? Então quem é que vai casar?
Ninguém, mas há tanto tempo que não estamos todos juntos, sem más disposições, sem desculpas esfarrapadas para ir para casa mais cedo (a mim é que me apetece ir para casa mais cedo, mas não vou, sei bem que não vou).
Pronto está bem, convenceram-me, manda lá vir mais uma rodada então!
Ah eu sabia que não nos ias deixar ficar mal
Sim está bem, sabem bem como sou, não é preciso muito para me convencerem, especialmente com tequilla!
Dei mais uma vista de olhos ao bar, começou a chegar mais gente e ela continua lá ao fundo, entretanto com mais pessoal amigo.
De vez em quando, os nossos olhos cruzam-se, vejo uma tristeza no olhar dela, ela deve ver qualquer coisa no meu também.
A noite avança, o álcool desliza, o cérebro começa a afastar as ideias de ir para casa mais cedo, o tom de voz aumenta, em parte por culpa do maior número de pessoas que agora estão no bar.
Olho mais umas vezes em volta, com tanta gente agora, tenho dificuldade em encontá-la, mas ela lá está, ainda ao fundo do balcão, nota-se que também o álcool já faz os seus efeitos, porque quando olha para mim, já não é com os mesmos olhos tristes, já consegue esboçar um sorriso tímido, na minha direcção. Eu faço o mesmo, um sorriso tímido, ligeiramente culpado, a cerveja e a tequilla (quantas são já? alguém tem estado a contar?) fazem-me isto, desculpabilizam-me, tiram-me o peso de cima dos ombros, de certeza que não é só a mim, a ela torna-a menos fria, menos zangada...
Levanto-me, tenho que ir à casa-de-banho, tenho que passar por ela, faço os possíveis para não passar mesmo junto a ela, mas ela faz os possíveis para que fiquemos mesmo frente a frente aquando da minha passagem.
Desculpa, há bocado fui um bocado ríspida contigo
Não faz mal, eu compreendo, sabes que eu compreendo, sabes que te dou razão
Zé, eu não quero que me dês razão, não preciso ter razão, não quero ter razão
Tens razão, desculpa
Oh Zé para com isso!!!
Desculpa! Desculpa, saiu sem querer...
Ainda bem que ela me interrompeu com uma gargalhada, sincera, descomprometida, realmente feliz, mas também já se sabe, o álcool alegra!
Ficamos de olhos fixos um no outro durante uns segundos, um sorriso estampado nos nossos rostos, mas aí lembrei-me
Não te vás embora, tenho que ir à casa-de-banho, já volto!
Não sei Zé, o pessoal já estava mesmo de saída
Vá lá, é rápido!
Então mas que me queres?
Não sei... mas gostei de te ver, gostei de olhar para ti
Contigo é sempre a mesma coisa ... vá, vai lá à casa-de-banho
Esperas?
Vai!!!
Quando voltei não a vi, já estava a espera de não a ver
Voltei para a mesa a pensar, talvez tenha sido melhor assim
O pessoal lá estava e eu lá me juntei
A partir daqui, já se sabe, a memória começa a falhar...
Dia seguinte
Acordei na cama, na minha cama, sozinho, não me falta nada, daqui a pouco já telefono para saber como cheguei a casa...
E ela. Ela não sei, não me lembro se ainda a vi nessa noite, provavelmente não, é melhor que não...
O mesmo grupo de sempre, de há dez anos para cá.
Estávamos todos bem dispostos, como é hábito, mas por alguma razão, eu estava distraído. Olhei em volta, a ver se via alguma das poucas caras conhecidas, que não fazendo parte deste grupo mais chegado, posso, por vezes, ter uma conversa, que não se restrinja ao habitual "então tudo bem?".
Algumas caras totalmente desconhecidas, poucas, afinal estamos em Março, não é altura para haver já muitos "estrangeiros".
A música é sempre interessante, uma das razões que nos faz vir aqui, num volume que nos deixar ouvir os nossos cérebros a funcionar, conseguindo mesmo conversar, sem gritar aos ouvidos uns dos outros.
Não poucas vezes já me dirigi ao bar para saber o que estava a passar, umas das barmaids lá me diz o nome, completamente desconhecido, mais um admirável mundo novo musical, terminando a conversa normalmente com um "se quiseres, eu gravo-te num cd". As vezes em que já houve um final de conversa destes entre nós, se tivessem sempre resultado num cd gravado, já tinha uma considerável colecção de "sons alternativos, pós-modernos, neo-clássicos, ligeiramente electrónicos..."
Quando dei por mim, já estávamos todos em frente ao balcão. Foi quando a vi, estava ao fundo, vodka tónica numa mão, cigarro na outra, conversando com uma amiga, com quem já a vi algumas vezes, mas de quem pouco sei, nem mesmo o nome.
Aproximei-me
Olá, tudo bem?
O que é que me queres Zé?
Desculpa, nada de mais, só cumprimentar-te...
(não era bem só cumprimentar-te, mas com uma entrada destas, fiquei desarmado, sem saber o que dizer a seguir)
Mais uma vez, desculpa...
Afastei-me, sem olhar para ela, só quando já estava longe, entretanto tinham-se sentado a uma mesa, é que olhei para ela novamente, notei que, por instantes ficou ligeiramente incomodada (se calhar não devia ter dito nada, mas agora é tarde...)
Ali ficamos sentados, cerveja atrás de cerveja, conversa atrás de conversa, risada atrás de risada
Quem é que se lembrou das tequillas?
Tudo bem, desde que seja só uma, duas no máximo, vocês sabem bem como é que eu fico, se bebo mais do que duas.
Vá lá, não sejas assim, hoje não é uma noite qualquer e amanhã também não vais trabalhar!
Ai não? Então quem é que vai casar?
Ninguém, mas há tanto tempo que não estamos todos juntos, sem más disposições, sem desculpas esfarrapadas para ir para casa mais cedo (a mim é que me apetece ir para casa mais cedo, mas não vou, sei bem que não vou).
Pronto está bem, convenceram-me, manda lá vir mais uma rodada então!
Ah eu sabia que não nos ias deixar ficar mal
Sim está bem, sabem bem como sou, não é preciso muito para me convencerem, especialmente com tequilla!
Dei mais uma vista de olhos ao bar, começou a chegar mais gente e ela continua lá ao fundo, entretanto com mais pessoal amigo.
De vez em quando, os nossos olhos cruzam-se, vejo uma tristeza no olhar dela, ela deve ver qualquer coisa no meu também.
A noite avança, o álcool desliza, o cérebro começa a afastar as ideias de ir para casa mais cedo, o tom de voz aumenta, em parte por culpa do maior número de pessoas que agora estão no bar.
Olho mais umas vezes em volta, com tanta gente agora, tenho dificuldade em encontá-la, mas ela lá está, ainda ao fundo do balcão, nota-se que também o álcool já faz os seus efeitos, porque quando olha para mim, já não é com os mesmos olhos tristes, já consegue esboçar um sorriso tímido, na minha direcção. Eu faço o mesmo, um sorriso tímido, ligeiramente culpado, a cerveja e a tequilla (quantas são já? alguém tem estado a contar?) fazem-me isto, desculpabilizam-me, tiram-me o peso de cima dos ombros, de certeza que não é só a mim, a ela torna-a menos fria, menos zangada...
Levanto-me, tenho que ir à casa-de-banho, tenho que passar por ela, faço os possíveis para não passar mesmo junto a ela, mas ela faz os possíveis para que fiquemos mesmo frente a frente aquando da minha passagem.
Desculpa, há bocado fui um bocado ríspida contigo
Não faz mal, eu compreendo, sabes que eu compreendo, sabes que te dou razão
Zé, eu não quero que me dês razão, não preciso ter razão, não quero ter razão
Tens razão, desculpa
Oh Zé para com isso!!!
Desculpa! Desculpa, saiu sem querer...
Ainda bem que ela me interrompeu com uma gargalhada, sincera, descomprometida, realmente feliz, mas também já se sabe, o álcool alegra!
Ficamos de olhos fixos um no outro durante uns segundos, um sorriso estampado nos nossos rostos, mas aí lembrei-me
Não te vás embora, tenho que ir à casa-de-banho, já volto!
Não sei Zé, o pessoal já estava mesmo de saída
Vá lá, é rápido!
Então mas que me queres?
Não sei... mas gostei de te ver, gostei de olhar para ti
Contigo é sempre a mesma coisa ... vá, vai lá à casa-de-banho
Esperas?
Vai!!!
Quando voltei não a vi, já estava a espera de não a ver
Voltei para a mesa a pensar, talvez tenha sido melhor assim
O pessoal lá estava e eu lá me juntei
A partir daqui, já se sabe, a memória começa a falhar...
Dia seguinte
Acordei na cama, na minha cama, sozinho, não me falta nada, daqui a pouco já telefono para saber como cheguei a casa...
E ela. Ela não sei, não me lembro se ainda a vi nessa noite, provavelmente não, é melhor que não...

1 Comments:
bom,ve la se vais mantendo a coerencia, para nao tar a ler posts de ha 2 anos atras!!gostei do que li!
abraços de lx
xuxas
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